FAQ - 25 principais dúvidas sobre malária
Este FAQ complementa, mas não substitui, os protocolos oficiais vigentes para diagnóstico, tratamento e vigilância da malária. Em situações não contempladas neste documento ou diante de casos complexos, recomenda-se consulta ao serviço de referência.
Não. O paciente deve manter o uso contínuo de suas medicações diárias, sem modificações de doses e horários. Exemplos: anti-hipertensivos, hipoglicemiantes, anticonvulsivantes, antirretrovirais e antituberculostáticos.
Não. Os antimaláricos podem ser administrados em qualquer horário do dia, preferencialmente após as refeições para reduzir o risco de desconforto gastrointestinal. Recomenda-se, sempre que possível, que sejam tomados aproximadamente no mesmo horário todos os dias. Para favorecer a adesão ao tratamento, a primaquina pode ser iniciada já no primeiro dia, concomitantemente à cloroquina.
Em caso de vômitos em até 60 minutos da administração dos antimaláricos orais, os mesmos devem ser repetidos. Caso ocorra após esse período, não é necessário repetir.
A prescrição de antimaláricos deve ser realizada somente após a confirmação diagnóstica por meio da gota espessa ou de teste diagnóstico rápido. Na presença de forte suspeita clínica e resultado inicial negativo, recomenda-se a repetição do exame em intervalos de 24-48 horas.
Pacientes em uso de doxiciclina, clindamicina, ciprofloxacino ou sulfonamidas podem ter parasitemia mais baixa ou negativa. É importante salientar que a malária pode causar alterações no exame simples de urina, como leucocitúria (piúria), sem que haja necessariamente infecção do trato urinário associada. Essa situação pode levar à prescrição inadequada de antibióticos e contribuir para o atraso no diagnóstico.
Ela deve fazer uso da cloroquina por 3 dias (10 mg/kg no dia 1 e 7,5 mg/kg nos dias 2 e 3), seguida de cloroquina semanal na dose de 5 mg/kg (máximo de 2 comprimidos por semana) até o término do primeiro mês de lactação. Recomenda-se a realização de uma lâmina de verificação de cura em todas as consultas de pré-natal, no momento do parto e ao término do primeiro mês de lactação. Em pacientes com adesão adequada ao tratamento, espera-se que esses exames permaneçam negativos. Se durante o pré-natal, no momento do parto ou antes de completar um mês de lactação a lâmina de verificação de cura for:
Se ao término do primeiro mês de lactação a lâmina de verificação de cura for:
Positiva: suspender a cloroquina semanal, tratar com cloroquina por 3 dias e associar a primaquina por 7 dias, pois, nesse momento (término do primeiro mês de lactação), a primaquina poderá ser utilizada para a cura radical.
Se a lâmina de verificação de cura positivar a qualquer momento, mesmo com adesão comprovada e tratamento corretamente administrado, o caso pode demandar investigação e discussão com especialista referência em malária.
Na ocorrência de interrupção da cloroquina semanal, recomenda-se realizar uma nova lâmina de verificação de cura. Se a lâmina for:
Sim, mas nos casos de malária por Plasmodium vivax, o tratamento não poderá ser com tafenoquina. A primaquina só poderá ser utilizada após o 1º mês de amamentação.
Sim. Embora a transmissão de mãe para filho seja rara, ela pode ocorrer. É recomendado testar o recém-nascido de mães que estejam em tratamento para malária ou de mães com sintomas de malária no período que antecede o parto.
Deve-se supervisionar a administração das medicações antimaláricas, especialmente em crianças menores de um ano.
A primaquina se distribui por todos os tecidos, inclusive o gorduroso, e por isso, sua dose deve ser calculada com base no peso real do paciente. Não deve ser aplicado limite máximo de peso para o cálculo da dose. Pacientes com sobrepeso ou obesidade quando usam primaquina nas doses habituais, podem apresentar mais recaídas.
Os cálculos de dose por quilo de peso corporal devem seguir os seguintes esquemas:
A metahemoglobinemia induzida por antimaláricos pode se apresentar nas formas leves (assintomática ou com pele acinzentada), moderada (cefaleia, vertigem, dispneia) ou grave (confusão mental, arritmias, convulsão). A suspeita ocorre quando há baixa da oxigenação, verificada por oximetria.
Trata-se de uma condição incomum, geralmente benigna e autolimitada, que tende a regredir após a suspensão da primaquina. Nas formas mais graves pode ser feito o azul de metileno (contraindicado se presença de deficiência de G6PD) e/ou ácido ascórbico, mas no geral, apenas oxigenioterapia e suspensão do antimalárico tendem a ser eficazes. Após a melhora, nos casos de malária por Plasmodium vivax ou Plasmodium ovale, a primaquina deve ser retomada para a cura radical, mas na forma semanal (0,75 mg/kg/semana), por 8 semanas.
Definições: A recaída é definida pelo reaparecimento de formas sanguíneas do parasito na gota espessa, com ou sem sintomas, entre o 29º e o 60º dia após o tratamento inicial. Quando esse reaparecimento ocorre de forma mais precoce, entre o 5º e o 28º dia, caracteriza-se recrudescência, geralmente associada à falha terapêutica, ao abandono ou à inadequação do tratamento. Já o reaparecimento após 60 dias, especialmente em áreas com transmissão ativa de malária, é considerado reinfecção, decorrente de uma nova exposição ao parasito.
Na possibilidade de recorrência em até 60 dias, o ideal é utilizar um novo esquema terapêutico potencialmente mais eficaz. O tratamento deve envolver um derivado de artemisina, como o artemeter-lumefantrina ou o artesunato-mefloquina, por 3 dias, somando a primaquina (0,5 mg/kg), mas agora, por 14 dias. A tafenoquina não poderá ser utilizada mesmo que o paciente tenha atividade enzimática de G6PD elegível.
É desejável que o profissional de saúde supervisione as medicações, em especial, em crianças, devido ao maior risco de recaída nessa população. Não existe nenhuma evidência científica que relacione o tipo de dieta (como alimentos gordurosos ou "reimosos") com a ocorrência de recaídas. O paciente não precisa mudar seus hábitos alimentares, mas deve ser orientado a tomar as medicações preferencialmente após as refeições para evitar dores abdominais e vômitos.
Sempre que possível, recomenda-se a realização da lâmina de verificação de cura conforme o cronograma abaixo, considerando o Dia 1 como o primeiro dia de tratamento:
Quando não for possível cumprir todo o cronograma de acompanhamento, deve-se priorizar a realização da lâmina de verificação de cura nos Dias 5 e 28 após o início do tratamento, independentemente da espécie de plasmódio envolvida.
O teste rápido não deve ser usado para controle de cura, pois pode permanecer positivo após o tratamento. Não há um tempo exato em que ele pode permanecer positivo, mas existem relatos na literatura de positividade por dias ou semanas.
Não se recomenda utilizar tafenoquina no tratamento de malária causada por Plasmodium ovale, consequentemente, a testagem da atividade G6PD não deve ser realizada.
Nos serviços que dispõem da testagem de G6PD e da tafenoquina, o teste deve ser realizado para orientar a escolha do esquema terapêutico da malária por Plasmodium vivax em pacientes com idade superior a 2 anos e peso igual ou superior a 10 kg. Na ausência da testagem, a tafenoquina não deve ser prescrita, devido ao risco de hemólise grave em indivíduos com deficiência de G6PD.
Para a prescrição de primaquina, a realização do teste de G6PD não é obrigatória. Entretanto, quando disponível, sua realização é recomendada, exceto nos casos de malária por Plasmodium falciparum (a primaquina é administrada em dose única no primeiro dia de tratamento, na dose de 0,5 mg/kg, considerada de baixo risco para hemólise).
Independentemente da realização do teste, os pacientes devem ser orientados quanto aos sinais e sintomas sugestivos de hemólise e instruídos a procurar atendimento de saúde caso apresentem manifestações compatíveis durante o tratamento.
Para execução é necessário que o paciente tenha 2 anos ou mais de idade e peso igual ou superior a 10 kg.
Sim. O teste de G6PD deve ser realizado antes da escolha do esquema de tratamento em cada novo episódio. Existem razões clínicas e operacionais para essa obrigatoriedade a cada nova infecção: a) a atividade enzimática pode flutuar; b) segurança no uso de novos esquemas; c) registro epidemiológico obrigatório
A malária é uma doença potencialmente fatal quando o diagnóstico e o tratamento não são realizados de forma oportuna. Por isso, é fundamental reconhecer precocemente os sinais e sintomas de gravidade, uma vez que sua presença influencia a escolha do esquema terapêutico e a necessidade de encaminhamento para serviços de maior complexidade. A malária grave deve ser considerada uma emergência médica.
Todo paciente que apresente qualquer um dos sinais e/ou sintomas descritos no Quadro 1 deve ser manejado em uma unidade hospitalar e, sempre que possível, em serviço de referência. Na ausência de exames laboratoriais, deve-se redobrar a atenção aos pacientes com letargia ou sonolência, pois esses achados podem indicar anemia grave.
Embora a maioria dos casos de malária grave esteja associada à infecção por Plasmodium falciparum, infecções por Plasmodium vivax também podem evoluir para formas graves e ocasionar óbito, especialmente em pacientes com comorbidades.
| Categoria | Manifestação |
|---|---|
| Clínica | Dor abdominal intensa (ruptura de baço, mais frequente em Plasmodium vivax). |
| Clínica | Mucosas amareladas, icterícia (não confundir com mucosas hipocoradas). |
| Clínica | Mucosas muito hipocoradas (avaliada fora do ataque paroxístico febril). |
| Clínica | Redução do volume de urina a menos de 400 mL em 24 horas. |
| Clínica | Vômitos persistentes que impeçam a administração da medicação por via oral. |
| Clínica | Qualquer tipo de sangramento. |
| Clínica | Falta de ar (avaliada fora do ataque paroxístico febril). |
| Clínica | Extremidades azuladas (cianose). |
| Clínica | Aumento da frequência cardíaca (avaliar fora do acesso malárico). |
| Clínica | Convulsão ou desorientação (não confundir com o ataque paroxístico febril). |
| Clínica | Prostração (em crianças). |
| Clínica | Comorbidades descompensadas. |
| Laboratorial | Anemia grave (hemoglobina ≤7 g/dL para adultos). |
| Laboratorial | Hipoglicemia. |
| Laboratorial | Acidose metabólica. |
| Laboratorial | Insuficiência renal. |
| Laboratorial | Hiperlactatemia. |
| Laboratorial | Hiperparasitemia (>250.000/mm³ para Plasmodium falciparum). |
Fonte: WHO, 2024.
Todo paciente com malária grave, incluindo crianças menores, gestantes em todos os trimestres de gestação e lactentes, devem usar artesunato intravenoso ou intramuscular, até que possam tomar medicação oral e completar o esquema preconizado por espécie parasitária, respeitando as restrições, quando presentes.
Caso o artesunato injetável não esteja disponível para uso imediato, deve-se fazer uso de algum derivado de artemisina acessível até que a medicação injetável seja disponibilizada.
Passo 1: pese o paciente.
Passo 2: calcule os frascos necessários.
Utilize a regra abaixo:
<25 kg: 1 frasco.
26-50 kg: 2 frascos.
51-75 kg: 3 frascos.
76-100 kg: 4 frascos.
Acima de 100 kg: calcule utilizando a dose de 2.4 mg/kg.
Exemplo:
Adulto de 120 kg:
2.4 mg X 120 kg / 60 mg (apresentação da medicação) = 4,8 (arredonde para 5 frascos)
Passo 3: reconstitua o medicamento.
Siga procedimento estéril para todos os passos seguintes.
Aspire o conteúdo da ampola de bicarbonato e injete no frasco de artesunato 60 mg. Agite até dissolver. Não agite vigorosamente. A solução inicialmente ficará turva e depois transparente, em cerca de 1 minuto. Descarte se não ficar transparente. Cada frasco deve ser reconstituído em separado.
Passo 4: dilua o medicamento.
Retire o ar do frasco e posteriormente injete o volume abaixo:
Atenção: água para injeção não é um diluente.
Passo 5: calcule a dose a ser administrada.
Via intravenosa (preferencial):
Para pessoas com menos de 20 kg: 3 mg/kg
Para pessoas com 20 kg ou mais: 2.4 mg/kg
Exemplo:
Criança de 10 kg:
3 mg X 10 kg / 10 (concentração da solução de artesunato intravenoso) = 2,4 ml (arredonde para 3 ml)
Adulto de 70 kg:
2.4 mg X 70 kg / 10 (concentração da solução de artesunato intravenoso) = 16,8 ml (arredonde para 17 ml)
Via intramuscular (evitar se plaquetopenia, devido ao risco de formação de hematoma grande e doloroso):
Para pessoas com menos de 20 kg: 3 mg/kg
Para pessoas com 20 kg ou mais: 2.4 mg/kg
Exemplo:
Criança de 10 kg:
3 mg X 10 kg / 20 (concentração da solução de artesunato intramuscular) = 1.5 ml (arredonde para 2 ml)
Adulto de 70 kg:
2.4 mg X 70 kg / 20 (concentração da solução de artesunato intramuscular) = 8.4 ml (arredonde para 9 ml)
Passo 6: administre a dose imediatamente após a preparação.
Via intravenosa: administração lenta, de 3-4 ml por minuto. Certifique-se de que a via intravenosa está desobstruída limpando-a antes e depois da administração.
Via intramuscular: também administração lenta. Divida as doses superiores a 5 ml em locais diferentes.
Descarte qualquer solução não usada dentro de 1 hora.
Passo 7: posologia.
Administre o mínimo de 3 doses parenterais, durante 24 horas, mesmo que o paciente possa tomar a medicação por via oral.
Exemplo:
Dose 1: na admissão
Dose 2: 12 horas após a 1ª dose
Dose 3: 24 horas após a 1ª dose
Passo 8: Reavaliação:
Se o paciente não puder tomar medicação oral, continue com o tratamento parenteral, agora, a cada 24 horas, por um máximo de 7 dias, até que a medicação oral possa ser administrada. Prepare uma solução nova para cada administração.
Se o paciente puder tomar medicação oral, prescreva um curso de 3 dias completos com um derivado de artemisina por via oral, 8-12 horas após a última dose de artesunato injetável, juntamente com a primaquina, conforme esquema terapêutico recomendado para espécie parasitária, respeitando contraindicações. O artesunato injetável deve ser sempre seguido de 3 dias de um derivado de artemisina.
Em crianças com malária grave, o uso empírico de antibióticos deve ser avaliado devido à dificuldade de diferenciar clinicamente malária grave de sepse bacteriana e à frequência de coinfecção bacteriana (aproximadamente 4–16%), associada a maior mortalidade. Assim, embora o antibiótico não trate o parasita da malária, seu uso é indicado especialmente em crianças com menores de 5 anos, com anemia grave, desnutrição, prostação, sinais clínicos de sepse, parasitemia desproporcional ao quadro clínico e febre persistente após o uso de antimaláricos.
A primaquina é um medicamento utilizado para a cura radical da malária causada por Plasmodium vivax e Plasmodium ovale, prevenindo recaídas por meio da eliminação dos hipnozoítos hepáticos. Além disso, na malária por Plasmodium falciparum, ela é empregada para reduzir a transmissão ao eliminar gametócitos circulantes. Atualmente, está disponível apenas na forma oral. Sempre que possível e na ausência de contraindicações, recomenda-se sua administração já no primeiro dia de tratamento. Entretanto, em pacientes com malária grave, especialmente aqueles com instabilidade clínica, uso de drogas vasoativas, rebaixamento do nível de consciência ou impossibilidade de utilizar a via oral, a administração da primaquina pode ser adiada até que a via oral esteja disponível e a absorção enteral do medicamento seja adequada. Esse atraso temporário não compromete o tratamento inicial da malária grave, cuja prioridade é a administração imediata e adequada do antimalárico parenteral, associada às medidas de suporte clínico necessárias.
A hemólise pode ocorrer em pacientes com deficiência de G6PD que fizeram o uso de primaquina ou tafenoquina e geralmente ocorre após 48-72 horas do uso. Casos suspeitos de hemólise devem ser manejados em ambiente hospitalar. O primeiro sinal clínico é a colúria (“urina cor de Coca-Cola ou urina cor de Guaraná”), frequentemente acompanhada de fadiga, mal-estar, icterícia e queda da hemoglobina. Insuficiência renal pode ocorrer.
Na possibilidade de hemólise, a primaquina diária deve ser suspensa de imediato. Após a estabilização do paciente, a primaquina semanal (0,75 mg/kg/semana), por 8 semanas poderá ser iniciada para proceder com a cura radical. Se a hemólise foi pelo uso indevido da tafenoquina, não há necessidade de uso adicional de primaquina semanal.
A tafenoquina não deve ser utilizada em casos de malária com sinais de alarme e a hemoglobina menor ou igual 7.0g/dL é considerado um dos critérios de gravidade. Além disto, a deficiência de G6PD é avaliada medindo a atividade da enzima nos glóbulos vermelhos. O teste depende de uma quantidade adequada de hemácias para dar um resultado confiável. Níveis mais baixos de hemoglobina podem dificultar a interpretação do teste.
Não. A duração do esquema não significa maior eficácia. A tafenoquina demonstrou eficácia comparável, e por ter um esquema mais simples, ela pode ser mais eficaz na prática por causa da melhor adesão.
Horário de atendimento:
WhatsApp – 24 horas
Ligações – Segunda a sexta, das 8h às 17h